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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

João Petinga / Heli Samuel * Antonio Cabral Filho - Rj

João Petinga / Heli Samuel
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Heli Samuel, 
a considerar pelo comentário de Luiz Carlos Machado, na segunda orelha, não precisa de mais apresentação. Mas seus romances, João Petinga e Amecarim, dizem por si só da grandeza desse sujeito. Nascido no norte do estado, filho de contador, meteu a cara no Rio e foi estudar. Mudou-se para a capital e foi trabalhar na Petrobrás. Ajudou os irmãos, cuidou da mãe, e do pai a notícia que se tem está em João Petinga, um homem austero, que não dá margens para as elocubrações dos filhos em pensar por conta própria. Seus livros não alcançaram o sucesso, diga-se de passagem, merecido. E mesmo assim, Heli Samuel nunca se entregou. Foi jornalista e crítico literário, como atesta sua abordagem sobre o livro 'Medo e o segundo tempo', de Eva Bán.
Uma das linhas fortes do seu romance João Petinga é a resignação do personagem perante as coisas da vida:"É a vida, é a vida!", é uma expressão repetida exaustivamente para demonstrar o caráter do personagem e a recusa do autor em pensar dessa forma. Não vejo razão nenhuma para alguém desprezar um livro com essas características, uma vez que a chamada grande literatura não é assim considerada porque está na mídia, mas porque oferece ao leitor fatores que o envolvem existencialmente. E nisso João petinga dá show!
*
Mais Heli Samuel
https://letrastaquarenses.blogspot.com.br/2016/09/eva-ban-sem-medo-nem-segundo-tempo.html 
***

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Academia Duquecaxiense De Letras E Artes - ADLA * Antonio Cabral Filho - Rj

Academia Duquecaxiense de Letras e Artes - ADLA
Duque De Caxias - Rj
http://adlaonline.blogspot.com.br/ 
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ADLA Facebook
https://www.facebook.com/Academia-Duquecaxiense-de-Letras-e-Artes-306235462730229/?hc_ref=PAGES_TIMELINE
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domingo, 31 de janeiro de 2016

O Norte Fluminense / Maria Beatriz * Antonio Cabral Filho - RJ

O Norte Fluminense
Bom Jesus De Itabapoana - Rj
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http://onortefluminense.blogspot.com.br/2016/01/biblioteca-do-ccmb-possui-preciosidades.html 
*
Acesse e confira. São duas preciosidades: A primeira, O Norte Fluminense, fundado por Ésio Martins Bastos em 25 de Dezembro de 1946 e dirigido por Luciano Augusto Bastos no período 2008-2011. E-mail: onortefluminense@hotmail.com. E a segunda, a Revista Literária A Folha, de Campos dos Goytacazes divulgada pelo primeiro. 

Cabe ressaltar que não teríamos o prazer em tomar contato com estas publicações se não pudéssemos contar com a percuciente atuação da escritora Maria Beatriz, criadora e dirigente do 
Centro Cultural Maria Beatriz 

https://plus.google.com/+CentroCulturalMariaBeatriz/posts 

, de Laje do Muriaé - Rj, à frente do qual vem realizando vasto trabalho de pesquisa e divulgação da cultura fluminense. 

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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Prêmio Maria José Maldonado De Literatura 2016 * Antonio Cabral Filho - Rj

Prêmio Maria José Maldonado

De Literatura 2016
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09/01/2016 18:18h

A Academia Volta-redondense de Letras (AVL) tem a honra de anunciar que  se encontram abertas as inscrições para o Prêmio Maria José Maldonado de Literatura 2016.

Trata-se de um prêmio literário de abrangência nacional em que esperamos o congraçamento entre autores de todo país e, sobretudo, um espaço para a participação ativa de autores da região.

Os escritores podem concorrer nas categorias Poesia e Contos.

Os textos premiados (15 em cada categoria) serão publicados pela AVL em uma antologia digital, com ISBN.

Serão também eleitos os "Destaques Sul Fluminenses", fazendo distinção aos autores da região que se destacarem no certame.

As inscrições vão até 30 de Abril de 2016 e serão feitas por e-mail.

Veja o edital completo aqui

Qualquer dúvida, escrevam para concursos@avl.org.br 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Notícias Do Postal Clube * Antonio Cabral Filho - RJ

Notícias Do Postal Clube
&
***
Recebi ontem o cartão de FELIZ ANO NOVO do Postal Clube, enviado pela gentil Araci Barreto. Não fosse o detalhe, eu não estaria aqui comentando, preocupado, pois estou habituado pela nossa cultura cristã a receber "boas novas" anunciando o nascimento, a chegada, o aparecimento de uma nova era, de um novo tempo, de uma nova persona etc, mas Araci Barreto é tão sutil que anuncia uma "morte" com a mesma destreza de quem apresenta um troféu. 

Vejamos o cartão. Leiamos-lo. Destaquem "A partir de 2016... Vida Nova!" Tinha que ser Araci Barreto! Eu ainda estou sob o impacto da chamada. Parece ironia, mas não é. Araci Barreto é assim mesmo: surpreendente. Descobri isso através de seus textos. Ela consegue sair do sério para o irônico numa vírgula, com uma fineza de lâmina.

Mas o acirramento "cirrótico" da crise que se abate sobre o Brasil não atinge somente o consumo do povão. Não. Atinge também as nossas atividades culturais. São inúmeros os saraus que tiveram seu público minguado, os lançamentos reduzidos a amigos dos autores e seus editores de olho na dívida da edição do livro, seguidos de alguns fãs um tanto fanáticos para darem o ar da graça no evento com suas neuro-performances. E não se reduz a isso. Muitos fanzines, como o Letras Taquarenses, são retraídos a seis ou oito edições por ano devido a esses fatores, além da resposta do respectivo público. 

No caso do Postal Clube, a coisa é mais séria, pois Araci Barreto é sua idealizadora, fundadora e única dirigente, contando apenas com a participação direta de familiares e algum apoio financeiro vindo dos associados. Fora disso, apenas a boa vontade de alguns "caraboladores", como o insigne aqui, que divulga com a ajuda das muletas, "linguageiras e publicitáras". Para termos uma ideia mais ajustada dessa situação, esse ano de 2015 não deu condições de lançarmos a 17ª Antologia do Postal Clube. Todos sabemos da dedicação e  esforços dispendidos por Araci Barreto, e sabemos também quão doloroso é receber de volta a importância depositada para edição do livro. Simplesmente triste!

Agora, voltem ao cartão, destaquem "O Postal Clube estará apenas na internet". Ou seja, morreu O Jornalzinho! Não teremos mais sobre a mesa o monte de Jornalzinhos que tenho agora. Isto se deve a quê? Respondo que aos tempos modernos. Ou seja, grande parte de nossos escritores, amadores e profissionais, aderiu "de cara!", aos meios de comunicação virtuais, sacrificando o IMPRESSO. Crasso erro! Precisamos entender que uma coisa complementa a outra. Hoje, o IMPRESSO representa uma forma documental da sua obra publicada, e não mais aquela velha fantasia de que a quantidade de exemplares publicados, vendidos ou não, é que faz a diferença. Isso acabou. Com a entrada em campo da mídia virtual, quem souber explorar uma forma aliada à outra, estará fazendo o uso correto dos poderes da mídia, e aquele que se restringir a uma forma ou à outra, infelizmente, não sabe o que está perdendo.

Recentemente, brinquei com Ilma Fontes sobre as necessidades de implementação do site do Jornal O Capital, e ela colocou-me a par dos problemas por ela enfrentados, sobretudo no campo do gerenciamento, concluindo que não abria mão da mídia impressa. Ela está errada? Não! Seja o jornal, o livro ou a revista "impressos" que chegar à nossa residência, ficará ali, como que largadas, até que um parente, um amigo ou uma visita desavisada, meta a mão, pegue, leia e trave contato, participando ou não, mas tornando-se alguém que conhece aquele produto. E a mídia virtual? Sem dúvida que os gurus comunicólogos dirão "È o futuro!". Claro! Só o futuro, mais nada. Pois quem não tiver aptidão para lidar com isso, estará excluído. Excluído e simplesmente. Até por que uma matéria na internet depende de quem saiba buscá-la. 

Porém, o encerramento d'O Jornalzinho, órgão informativo do Postal Clube, com edições bimestrais, às vezes até mais, não representa apenas o saldo de tudo que disse acima. É muito mais. E muito mais porque o trabalho editorial, a tarefa de fazer uma publicação, por mais humilde que seja, sempre leva alguém a uma solidão, uma solidão de um tipo diferente, que é a solidão das decisões. Por que publicar a e não b, por que privilegiar um segmento dentro daquilo que buscamos focalizar, por que fazemos opções, às vezes caras, por que seguirmos uma tendência e não outra ou todas?... Simplesmente porque não somos "maria-vai-com-as-outras". Porque temos escolhas, posturas, personalidade e disposição para "pagarmos pra ver!". Ou seja, somos GENTE. E Araci Barreto demonstra, com esses vinte e seis anos de atividade do Postal Clube, que verve não se pega emprestada, não se aluga nem dá pra "fazer de conta". E quem foi divulgado por Araci Barreto n'O Jornalzinho sabe do que estou falando, sabe que fechou-se mais uma porta para seu talento e todos sabemos quão isso é doloroso. Por exemplo, todos estamos sentindo a ausência d'O Patusco, editado em Caucaia - CE, pelo escritor cearense João Batista Serra, que por motivos de saúde, está dando um tempo. 

Bom, acho que disse o que pretendia sobre esse mal-estar causado pelo fim d'O Jornalzinho. E agora sinto-me à vontade para dizer aquilo que pretendia: convidar todos os escritores, poetas ou não, a fazerem-se ativos, presentes, parte real dos empreendimentos literários em que participem e encerrem essa coisa de "ficar na aba..."
*

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Fagundes Varela / Noturnas * Antonio Cabral Filho - RJ

Fagundes Varela
Dados Biográficos
http://www.e-biografias.net/fagundes_varela/ 
Acesse Obras De Fagundes Varela
http://www.nicoladavid.com/literatura/fagundes-varela 
*

domingo, 25 de outubro de 2015

Clave De Sol * Antonio Fraga - RJ

Antologia Dos Poetas Laureados
No Concurso De Poesia De "Leitura"
Apresentação
Adonias Filho

Comissão Julgadora
Carlos Drummond de Andrade, Antonio Olinto e Adonias Filho.
1º Lugar: Homero Homem. 2º Lugar: Otávio Mora. 3º Lugar: Jurandir Bezerra.
Livraria São José
Rio de Janeiro 1958
*
CLAVE DE SOL

I
As uvas cor de sol.
O sol - em negativo,
é como negra lâmpada
em branca cabeleira.

Uva. Pautas. Vindima
de sons, no pentagrama.
Músicas. Sazão.Ritmicos
fonemas de ouro moído
ouvimos, ah ouvimos
remordidas vivências.

Os vinhos de adulto preço
são feitos de olhos límpidos.
Olhar límpido, qual pranto,
tenho uva nas pupilas.

O olhar é vinho tinto
na trova. Safra. As horas
cortam o silêncio, caindo
no quadrante solar.

Clave de som no som
estala em tiques-taques
o sol, esta uva preta.

II

Uva. Pausas. Olhar
que explode, após relâmpagos,
e ilumina a estrada
por onde avançarei.

Os meus pés nunca sabem
o caminho das fugas.
Minhas mãos se recusam
a acariciar os dedos
com a face da amada.

E o amor é resolvido
em palavras-cruzadas:
horizontal - um beijo;
vertical - em tua boca,
minha loura e louca Yeda.

E a solução é a ênfase,
e o trim-dlem é o artístico.
E o sol é clave. E a lâmpada
apagada é a acesa.

III

Enlutado, sem o branco
açúcar - cor de sol,
sem o sal - cor de leite,
o poema é só manchete.

Muito negro (em negrito
a palavra é um CLOSE UP
na tecnica da estrofe)
o verso tem gatilhos.

Chovem séculos.
Chovem séculos.
Chovem séculos.

O tempo domestica os próprios deuses.
O tempo domestica os próprios deuses.
O tempo domestica os próprios deuses.

E muito o olhar, que tomba
como pranto maduro,
das uvas - sóis em eclipse
jorre a luz às avessas.

Antonio Fraga  - RJ, 
nascido no Catumbi, falecido em Nova Iguaçu, contista, cronista, poeta e personagem da boemia carioca, viandante da Lapa ao Mangue da Cidade Nova.
*

sábado, 24 de outubro de 2015

Antologia Luso Brasileira/Wagnar Ribeiro * Antonio Cabral Filho -= RJ

ANTOLOGIA
LUSO BRASILEIRA
Org Wagner ribeiro
Editora Coleção FTD Ltda. 1964
*
AS VÍTIMAS

No entanto, começava a declinar a tarde; uma voz reuniu todas as senhoras e senhores em um só ponto: serviu-se o café num bela caramanchão, mas como fosse ele pouco espaçoso para conter tão numerosa sociedade, aí só se abrigaram as senhoras, enquanto os homens se conservavam  na parte de fora.

Escravas, docemente vestidas, ofereciam chávenas  de café fora do caramanchão e, apesar disso, D. Carolina se dirigiu com uma para Fabrício, que praticava com Augusto.

-  Eu quero fazer as pazes, Sr. Fabrício; vejo que deves estar muito agastado comigo e venho trazer-lhe uma chávena de café temperado pela minha mão.

Fabrício recuou um passo e colocou-se à ilharga de Augusto; ele desconfiava das tenções da menina: o café não tem açúcar. Então, começou entre os dois um  duelo de cerimônias, que durou alguns instantes, e finalmente o homem teve de ceder à mulher. Fabrício ia receber a chávena, quando esta estremeceu no pires... D. carolina, temendo que sobre ela se entornasse o café, recuou um pouco. Fabrício fez outro tanto; a chávena, ainda mal tomada, tombou, o café derramou-se inopinadamente. Fabrício recuou ainda mais com vivacidade, mas, encontrando a raiz de um chorão, que sombreava o caramanchão, perdeu o equilíbrio e caiu ruidosamente na relva. Uma gargalhada geral aplaudiu o sucesso.
- Fabrício espichou-se completamente! exclamou Filipe.

O pobre estudante ergueu-se com ligeireza, mas, na verdade, corado do que acabava de sobrevir-lhe; as risadas continuavam; todas as senhoras tinham saído do caramanchão e riam-se, por sua vez, desapiedadamente. Fabrício daria muito para se livrar dos apuros em que se achava, quando, de repente, soltou também a sua risada e exclamou:
- Vivam as calças do Augusto!

Todos olharam.Com efeito, Fabrício tinha encontrado um companheiro na desgraça. Augusto estava de calça branca e a maior porção do café entornado havia caído nela.

Continuaram as risadas, redobraram os motejos. Duas eram as vítimas.

Joaquim Manuel de Macedo
( A Moreninha), 
*

terça-feira, 31 de março de 2015

Francisco Roberto Vieira, Poeta * Antonio Cabral Filho - Rj

O professor Francisco Roberto Vieira não deixou-me DADOS, para que eu pudesse falar sobre ele para a posteridade. Mas como pode ser visto acima, ele editou a folha literária CARTA POÉTICA, março de 1997, não sei até quando, porque perdemos contato em torno do ano 2000, mas o livro estampado na foto foi impresso por mim e foi o presente de natal que ele deu aos amigos em dezembro de 1996.                             
                                   Fora isso, o Professor Francisco, ou Chico, para os amigos, circulava em muitos fanzines de poesia, como o meu CURUPIRA, ou jornal e revista dos movimentos sociais, fosse indígena, sem-terra ou sindical.  No caso dos movimentos indígenas, ele protagonizou a criação de uma entidade de apoio à causa indígena, o COMITÊ DE APOIO À CAUSA INDÍGENA - CACI, junto com outro gigante do ativismo social da UFF, o Professor Habauna Baumaster; juntos, eles pegavam as mochilas e rachavam para o Xingu; voltavam consagrados pelas reportagens que faziam sobre todo tipo de demanda envolvendo os índios, sobretudo, a presença religiosa branca, tanto católica como protestante, as quais eles "denunciavam!"
Mas a sua atuação poética é que me interessa. Temos acima a foto do livro ANTOLOGIA POÉTICA VOL2 - UFF/EDUFF 1996, da qual eu participo, e creio que ele integrasse outras edições, o que não consegui levantar. No entanto, toda a sua produção poética do meu conhecimento será mostrada aqui.
Nesta ANTOLOGIA, ele participa com o poema " ESTADO DO ESPELHO:
Feio e bonito
me revelas por partes.
Em repentinos lampejos
mais belas
ou em momentos duradouros,
mais insondáveis.

Então me vejo
de tantas faces de mim mesmo assim vestido,
e com que máscaras sobre máscaras assustadoras,
me disfarço.

Em espelhos de casa dos risos,
já me peguei a gargalhar da sorte,
de minha própria imagem contorcida,
em palhaço.

Vem-me um outro agora,
e novamente,
com esse semblante lindo.
Seria o semblante da morte?

Veio-me então, minha alma,
tão plenamente,
na limpidez de sua face;
e nos reflexos dessas águas de lágrimas,
tão pláscidos."
***
Do livro

REFLEXOS
RE
FLEXOS

segue-se
SENTIMENTO

Sentia tanta saudade de você!
Mas que saudade da saudade que sentia de você!
Sentia saudade daquela saudade.
Que era saudade mesmo de quê?
E agora sem nenhuma dor,
Sinto só saudade:
Vaga saudade...
Sinto muito amor.
***
FORA DE MIM

Pensei em ir talvez lá fora.
Quem sabe, encontre alguém.
Mas para que é que eu vou lá fora,
Lá fora não há ninguém.
*** 
CANDELÁRIA

E agora
só escutas a sucessão dos tiros,
inúteis tiros.
- Que já não são mais para mim,
hás de pensar.
- Talvez atire na própria morte.
Pensas:
Na morte dos meus poucos anos.
***
ARCA DE NOÉ

Como aquela arca.
Guardo em mim todos os seres
e todas as coisas.
Sou o que anseia tudo
e a tudo conter.

Ser o íntimo de cada tom, de cada cor,
e ainda, de cada cintilar sutil das pedras

Trazer em minh'alma todos os afagos,
e a totalidade dos desejos saciados.
Pelo amor.

E tudo isso ainda é pouco.
Sou arca imensa e inesgotável,
quero ainda ter aquela ave
desfalecida em minhas mãos meninas,
e com as mesmas mãos,
acarinhar todas as rugas e dores já sentidas,
para finalmente derramar todas as lágrimas
de todas as legítimas emoções quiçá vividas.
***
REPULSA

Sem querer
rocei no cabelo dela
e senti sua rejeição.
Nojo de gente, pensei.
Tomara que morra sozinha,
sem ter quem lhe penteie os cabelos,
ou lhe venha escovar os dentes
***
VIDA E MORTE

Cortas como faca o vento,
procurando a vida
Insistentemente.
Rasgo como navalha o tempo,
fugindo da morte,
inutilmente.
***
A GIORDANO BRUNO

A "ciência proclamada,
não estancou ainda o cutelo da divisão".
Muito ao contrário, Giordano,
foi exacerbada a dispersão.
Com plena liberdade,
já é lícito pensar filosofia,
mas como ontem,
continua a inquisição.
E ainda é 
o maior inimigo do humano
o Homem.
Que continua a lamentação,
como um infeliz GIORDANO.
***
MEU POEMA

Meu poema,
não é aquilo,
que tento tanto escrever.
O meu poema,
já está escrito,
pois ele é sempre você.
***
AO PEQUENO BOIADEIRO

Como crina orvalhada,
teus cabelos,
meu pequeno boiadeiro.

No aboio da madrugada,
te conhece pelo nome,
cada animal,
meu pequeno boiadeiro.

Ê mimoso, ê malhada...
teu grito me acordou mais cedo,
meu pequeno boiadeiro,
que conhece pelo nome,
acada animal da boiada.
***
MEU VERSO

Meu verso,
é dizer nos entre-versos
o que nunca revelei
do meu tão grande segredo
que se esconde até de mim.

É procura que não acha,
está sempre faltando um dado,
teorema não demonstrado,
namoro que nunca se casa.

Buscando a razão da razão,
e a poesia da poesia,
é um pranto que não cessa,
é festa que não acaba.

Quase mudo,
da rima já se perdeu,
pra tentar a precisão,
e foi ficando sem nada,
pra poder falar de tudo.

De tantas voltas no mundo,
já virou minha cabeça,
rebelou-se contra todos,
e até mesmo contra mim,
para poder dizer do todo,
que ele é fogo e é água,
que é terra e é amor,
é que ele ficou assim.

Meu verso,
se vai, não fica. 
É apenas um perfume,
que se esvai logo que sinto,
meu verso...
Nem mesmo eu sei,
o que ele significa.
***
A POESIA

Como bálsamo que a dor aumenta,
perfumando a alma,
silêncio feito de palavras,
para espreitar as ideias,
e os sentimentos.

Na arte preparo o bote,
sabendo que sou a caça;
é o texto de um testamento
ciente que sou moribundo,
se eu me chamo Raimundo,
ou se me chamo Rosa,
ou se por outro nome me chamo...
Que me importa que nome tenho,
se todo nome é de poeta?
***
ÁRVORES NOTURNAS

É possível que mil tons
de sombras
se completem numa unidade,
de paz.
Numa síntese de beleza,
de um complexíssimo fractal.
E são as árvores noturnas,
que me revelam um segredo:
Os dinossauros se extinguiram 
porque eram feios;
a estética é a lei,
afinal.
***
PRETÉRITO

Há mistérios,
nas casas abandonadas.
Há mistérios,
nos velhos livros esquecidos,
há mistérios...
Histórias minhas em recantos,
onde nunca estive;
histórias minhas em páginas rasgadas,
que nunca escrevi, nem li.
Pedaços de mim
que há milênios se perderam.
Pedaços que, como fantasmas,
de mim se esconderam.

Tantas vezes morri!
E os vestígios
que ficaram 
nas antiguidades,
os escondi.
***
ARQUEOLOGIA POÉTICA

Faço-a das sobras,
dos detalhes negligenciados,
pelos distraídos,
pelos apressados .
Arqueologia dos gestos,
de uma dança casual,
no limiar entre o selvagem e o civilizado.

Entre o conflito e a paz
procuro o belo no feio,
e o significado no não-senso,

pois sei que é bela,
pois sei que é a vida.
E a encontro no acaso,
(Finalmente!)
dos momentos esquecidos,
quando se desnuda,
displicentemente.
***
VELHAS ÁRVORES

... e escureceu o céu da tarde.
Cor de temporal.
Pressa de temporal,
cheiro bom de temporal,
brisa que avisa
o temporal.

Tocam-se as folhas suavemente,
e os galhos velhos e os novos.
Vão-se os anciãos em sussurros,
e as crianças com algazarra,
antes da hora.

- Hoje se vão mais cedo.
- Podemos dormir mais cedo.
E as velhas árvores trocam intimidades,
e os segredos da vida e da morte.
Disfarçando suas falas,
nos sons do vento,
do temporal.
***
AS VELHAS

Falam-se simultaneamente,
balbuciando em coro,
em todas as solenes tardes,
como em ritual.

Tramam nossos destinos,
tecem o tricô,
e o futuro do mundo,
como pitonisas.

Que astuciam,
com tão simples alegria,
aquelas velhas do parque,
todos os dias?
***
LIÇÃO VEGETAL

Preciso aprender,
a aprender com os vegetais,
a verdadeira vida,
A verdadeira paz.
A sentir o sabor do cotidiano,
e com naturalidade,
a crescer buscando a luz,
(Busca incessante!)
A buscar sem ansiedade,
encontrando e construindo,
sem pressa, dia a dia,
uma nova estética.
E implacável,
que a si mesma se completa,
simultaneamente simples e complexa.
Absolutamente inédita.
E quanto à morte, caminhar sem zelos,
aprendendo que viver,
essencialmente,
é fazer-se e ao mundo,
cada vez mais belos.
***
É SEMPRE ASSIM

É sempre assim,
o nosso amor é inconstante como a vida,
parece gente,
tem humor, tem despedida,
agora é não, para depois dizer que sim.

É sempre assim,
o nosso amor é infinito, mas acaba,
depois que volta,
é mais gostoso, é mais fogoso,
é mais fiel, é como o mel, é mais afim.

E afinal,
quem pode compreender essa loucura?
De que lugar é que nos vem essa ternura?
que me preenche e ao mesmo tempo me esvazia?

É que o amor é certamente uma procura,
é que o amor é um achar que não acaba,
o amor é luz, o amor é dor,
é a poesia.
***
CONTRAMÃO

Levando cada um
a sua dor,
os carros passam sempre,
na mesma direção.
A dor tem pressa, 
não se sabe de que,
mas a dor tem pressa.
Talvez pressa de passar,
ou pressa de crescer

A via expressa
é corredor interminável,
por onde passam as dores que não passam,
eu as contemplo,
e eu medito,
a minha própria dor,
mas afinal, que dor é essa,
que não passa?
***
ALEGRIA

Hoje bem cedo,
encontrei na padaria,
um sorriso,
um doce sorriso,
daquela mais pura alegria.
Era um sorriso franco,
com uma pintinha no canto,
do rosto.
Indaguei-me,
de que seria feita,
aquela tão pura alegria?
Do orvalho da manhã?

E um suspiro doce,
desses que se desmancha na boca,
e num instante se acaba,
feito de clara e de açúcar,
me revelou a receita:
dizendo lá da vitrine,
que ela é feita de nada.
***
NA PRAIA

Fantasia.
Quisera ver teu corpo,
inteiramente nu,
e integralmente,
a passear pela praia.
Completamente iluminado,
pelos refletores do sol de alguma manhã.
Detalhadamente.
Numa praia tão pura,
como hás de a mim parecer,
sereia,
e em tal poema.
Ver,
quisera o movimento,
de cada curva tua,
desde as pegadas,
que deixares na úmida areia,
como úmidos meus olhos,
de tanta e tamanha alegria.
***
POS MODERNO

Computador, não rima com dor,
tomografia, não rima com alegria.
Então com que eu vou rimar amar?
Rimar por rimar? Ritmar por ritmar?

Mas embora,
tenham-se ido as varandas,
e as canções,
e as cirandas,
e mandem que eu me cale,
ainda vejo velhos e crianças.
Trabalhadores inocentes,
e meninas que pedem,
uma boneca que não fale.

E conheço também um menino,
que sonha em ser bombeiro.

E se a rima é difícil
é que não me acostumei,
com todo este meu mundo,
que por mim passa tão ligeiro.

Talvez assim seja melhor,
de ver a rima que há,
passa por nós a mil,
dentro do metrô.
***
RELIGIÃO

Não gosto desse teu Deus,
que ao contrário de ser onipotente,
muito pelo contrário,
é a ti tão obediente,
é um Deus que não te fala,
muito ao contrário,
só te escuta.
É um Deus que só de ti tem pena,
e a mim,
muito ao contrário,
só me condena.

Um Deus assim,
com tantas regras,
e tantas leis a cumprir,
todas ditadas por ti,
não é um Deus,
muito ao contrário,
é um escravo.
***
PALAVRA

Fala-se pouco,
enfraquecida a oralidade,
ninguém ouve, ninguém fala,
nesta cidade.
Corredor branco de um hospital,
de loucos.
Cheio de sinais,
as paredes são assepticas.
Os corpos são assepticos.
As relações são assepticas.
Higieniza-se cada palavra,
transformada agora em marca.
***
CIDADELA
A Manoel Dumnã

Como a ti, menino índio,
que ainda vejo ouvindo o Tocantins,
esperando os amigos na beira das águas,
com tanta fidelidade.

Canto a ti, índio menino,
de tanta beleza,
deixando que o rio te molhe os pés,
mas impermeável à maldade.
Completamente impermeável.
Como um banco genético,
do que chamamos humanidade.
Cidadela indomável,
guardando as matrizes
da nossa ameaçada natureza humana.
***
ANJO
Para a Filha do Robson

Conheço uma menina
que é um anjo,
infiltrado entre nós.
Teima em não ser gente comum,
tão delicada,
tão bela,
como aquelas pequeninas
flores do campo,
aquelas menorzinhas.

Um anjo disfarçado é ela,
tem um radinho escondido
e quando todos distraidos
estão assistindo a novela,
ela manda suas mensagens,
mensagens secretas pro céu.
***
POLITICAGEM

Não, não é por acaso,
que os políticos são tão ruins
e em geral tão imundos.
É que Deus entregou de fato
e ao diabo
o poder sobre este mundo.
***
MIRIAM

Por um descuido de Deus,
que Deus também se descuida,
caiu um anjo do céu,
e bem aqui em nossa casa.

Ou será que foi capricho,
que Deus também tem seus caprichos,
que bem aqui em nossa casa,
caiu um anjo do céu?
***
DUALIDADE

Abre o sinal,
não sei se vou
não sei se paro.

Desejo o sol,
aspiro a noite,
fico indeciso.

Olhando o outro,
não sei se amo,
não sei se odeio.

E cada momento,
pede uma opção:
Não existe o meio.

Quando me erram,
não sei se perdôo,
não sei se maldigo.

E todo apelo,
tem duas faces,
um sim e um não.

Faz-se a pergunta,
não sei se calo,
não sei se explico.

Se me divido,
a cada instante,
da minha vida.

E enfim, na ação,
ou na palavra,
eu me unifico.

Após findar o livro, passo agora À CARTA POÉTICA nº1 de março de 1997, com o poema MOVIMENTO:

Rola a bola
roda o tempo
sopra o vento
sobe a pipa
morre o velho
nasce um novo
vem a onda
vai-se o dia
dorme o sol
acorda a fantasia
passa uma estrela
fica um desejo
sinto um pensa-
mento,
pinto uma poesia.
***

Temos a seguir a última colaboração do Chico no meu CURUPIRA nº8, de julho de 1997, com um poema falando da privatização da VALE, intitulado SONETO AO QUASE FIM DA PÁTRIA:
Pátria, palavra no tempo esquecida,
tanto se fez, tanto se faz, que agora,
não restou quase nada do que outrora,
um dia, foi minha pátria tão querida.

Quanto VALE este chão todo encharcado?
(Sangue e suor de tantos brasileiros!)
A mãe dos índios, seus filhos primeiros?
Quanto VALE enfim, este chão dourado?

Um Silvério traiu Tiradentes,
morto por nossos minérios defender,
nossa soberania e liberdade.

Mas Silvério deixou seus descendentes,
sem-pátrias que da Mãe querem vender,
desde às entranhas à dignidade.
***

Aqui, o Chico sumiu. Ou seja, o Professor Francisco Roberto Vieira afastou-se da universidade; eu saí de lá em 2000 e, pouco depois, perambulando pelo Campus da Uff, soube que ele havia falecido....

FICAM A HOMENAGEM SINCERA E O REGISTRO DA SUA OBRA COLHIDA PELO AMIGO DE LONGOS ANOS DE CONVIVÊNCIA, Antonio Cabral Filho
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